Por que nossas crianças frequentam a escola, mas nem sempre aprendem? O que precisamos repensar na educação brasileira
O que precisamos repensar na educação brasileira e o que os métodos de ensino mais estudados podem nos ensinar
Por Professora Glaucia Martins | Descomplicando a Pedagogia
Existe uma pergunta que precisamos fazer com mais frequência quando falamos sobre educação no Brasil: estamos realmente ensinando nossas crianças a aprender ou estamos apenas cumprindo conteúdos, preenchendo atividades e avançando no calendário escolar?
Essa pergunta pode incomodar. Mas acredito que precisamos ter coragem para fazê-la.
A educação faz parte da minha trajetória profissional há muitos anos. Minha experiência com a Educação Infantil, a realidade das redes de ensino e a formação de profissionais me ensinou algo importante: por trás de cada resultado escolar existe uma criança, uma família e um professor tentando fazer o melhor com as condições que possui.
Por isso, quando discutimos os desafios da educação brasileira, não podemos transformar uma questão tão complexa em uma busca por culpados.
Precisamos falar sobre aprendizagem, formação de professores, desigualdades, métodos de ensino, participação das famílias e, principalmente, sobre o que acontece dentro da sala de aula.
Afinal, estar na escola é fundamental. Mas aprender precisa ser o verdadeiro propósito dessa experiência.
O que os números revelam sobre a educação brasileira?
Quando analisamos os indicadores educacionais, encontramos motivos para reconhecer avanços, mas também razões para continuar preocupados.
Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o percentual de crianças alfabetizadas ao final do segundo ano do Ensino Fundamental, nas redes públicas, passou de 56% em 2023 para 59% em 2024 e chegou a 66% em 2025.
É um avanço importante.
Mas precisamos olhar também para o outro lado desse número: aproximadamente 34% das crianças avaliadas ainda não haviam alcançado o padrão esperado de alfabetização ao final do segundo ano.
Isso significa que, mesmo com os progressos registrados, uma parcela expressiva dos estudantes brasileiros continua avançando na escolaridade sem consolidar uma habilidade essencial para toda a vida.
E o desafio não termina na alfabetização.
No PISA 2022, avaliação internacional aplicada a estudantes de aproximadamente 15 anos, metade dos participantes brasileiros apresentou desempenho em leitura abaixo do nível 2, considerado um patamar básico de proficiência.
Em termos simples, muitos adolescentes encontram dificuldades para interpretar informações, compreender textos e utilizar a leitura em situações que exigem maior autonomia.
Esses dois indicadores avaliam idades e habilidades diferentes. Entretanto, juntos, ajudam a compreender a dimensão de um desafio nacional: precisamos fortalecer a aprendizagem desde os primeiros anos e continuar acompanhando seu desenvolvimento ao longo de toda a trajetória escolar.
E aqui surge uma reflexão importante.
O problema não está apenas em ensinar a criança a reconhecer letras. Está também em garantir que ela avance da identificação das palavras para a compreensão do que lê.
Estamos confundindo atividade com aprendizagem?
Essa é uma reflexão que considero especialmente necessária.
Uma criança pode preencher várias páginas de atividades sem compreender exatamente o que está fazendo.
Pode copiar uma palavra corretamente sem conseguir lê-la de maneira independente.
Pode decorar uma sequência de sílabas sem compreender como os sons se relacionam com as letras.
E também pode realizar uma atividade divertida sem que exista um objetivo pedagógico bem definido.
Isso não significa que copiar, repetir, brincar ou utilizar apostilas seja errado.
Significa que nenhuma dessas práticas, isoladamente, garante a aprendizagem.
Imagine duas situações.
Na primeira, uma criança recebe uma folha com várias letras para copiar. Ela termina a tarefa e entrega ao professor.
Na segunda, a criança observa uma letra, escuta seu som, identifica palavras que começam com ele, participa de uma brincadeira oral, experimenta seu traçado e utiliza esse conhecimento em uma nova atividade.
Embora ambas as situações envolvam letras, a segunda oferece oportunidades mais variadas para explorar a relação entre fala e escrita.
A pergunta que devemos fazer não é apenas: "A criança terminou a atividade?"
Precisamos perguntar:
O que ela compreendeu? O que consegue fazer agora que ainda não conseguia antes?
Quando essa pergunta passa a orientar o planejamento, a atividade deixa de ser apenas uma tarefa e começa a fazer parte de um processo de ensino intencional.
Métodos tradicionais e abordagens atuais: o que realmente funciona?
A educação brasileira convive com diferentes concepções e métodos de ensino.
Algumas práticas valorizam a repetição e a memorização. Outras priorizam a descoberta, a interação, os projetos e a construção ativa do conhecimento.
Na alfabetização, encontramos abordagens silábicas, fônicas, propostas centradas em textos e práticas que combinam diferentes estratégias.
Mas precisamos ter cuidado com uma ideia muito difundida: a de que existe um único método capaz de resolver todos os desafios da educação.
A aprendizagem é complexa. E nenhum material, apostila ou metodologia substitui o conhecimento do professor sobre seus alunos.
Isso não significa, porém, que todos os métodos tenham o mesmo nível de comprovação científica.
1. Método silábico: aprender pela combinação das letras
O método silábico trabalha com combinações como BA, BE, BI, BO e BU, avançando para a formação de palavras.
Essa abordagem pode ajudar a criança a perceber regularidades na organização da escrita.
Entretanto, quando o ensino se limita à memorização de famílias silábicas, existe o risco de a criança decorar combinações sem desenvolver plenamente a compreensão dos sons que as compõem.
Por isso, considero importante que o trabalho com sílabas esteja acompanhado de atividades de escuta, consciência fonológica, leitura e compreensão.
2. Método fônico: compreender a relação entre letras e sons
O ensino fônico trabalha explicitamente as relações entre os sons da fala e as letras ou combinações de letras que os representam.
Por exemplo, a criança aprende a reconhecer os sons envolvidos em uma palavra e a relacioná-los à escrita.
Esse tipo de ensino possui uma base importante de pesquisas.
A Education Endowment Foundation, instituição britânica que reúne evidências educacionais, identificou um impacto médio positivo do ensino fônico sobre as habilidades iniciais de leitura.
O ponto central não é simplesmente ensinar o som das letras.
É organizar essa aprendizagem de maneira progressiva, sistemática e adequada ao conhecimento que cada criança já possui.
Mas existe um detalhe essencial: decodificar não é a mesma coisa que compreender.
Uma criança pode aprender a ler corretamente uma palavra e ainda precisar desenvolver vocabulário, interpretação, fluência e compreensão textual.
O ensino fônico é uma parte importante da alfabetização, mas não deve ser confundido com todo o processo de formação de leitores.
3. Aprendizagem lúdica: brincar também é coisa séria
Na Educação Infantil, a brincadeira ocupa um lugar fundamental.
Brincando, a criança explora o ambiente, desenvolve a linguagem, experimenta possibilidades, cria hipóteses e aprende a conviver.
Entretanto, precisamos diferenciar uma brincadeira com intencionalidade pedagógica de uma atividade utilizada apenas para ocupar o tempo.
Um jogo de rimas pode desenvolver a percepção dos sons finais das palavras.
Uma brincadeira de separar palavras em palmas pode estimular a consciência silábica.
Uma história contada com perguntas pode favorecer a oralidade, o vocabulário e a compreensão.
O valor pedagógico está na relação entre a experiência, o objetivo de aprendizagem e a intervenção do professor.
Brincar e aprender não são caminhos opostos.
O desafio é compreender como criar experiências que respeitem a infância e, ao mesmo tempo, favoreçam aprendizagens importantes.
4. Ensino explícito: orientar também é ensinar a pensar
Existe uma ideia de que o professor precisa escolher entre explicar diretamente ou permitir que a criança descubra sozinha.
Na prática, essas possibilidades podem se complementar.
Em muitas situações, especialmente quando a criança está aprendendo algo novo, a orientação clara do professor é indispensável.
Ele demonstra, explica, oferece exemplos e acompanha as primeiras tentativas.
Progressivamente, a criança ganha autonomia.
Podemos pensar em uma sequência simples:
Primeiro, o professor mostra como fazer.
Depois, realiza a atividade junto com a criança.
Em seguida, oferece oportunidades para que ela tente sozinha, com apoio quando necessário.
Isso não elimina a criatividade nem a participação infantil. Pelo contrário, pode oferecer segurança para que a criança avance em seus conhecimentos.
O que podemos aprender com pesquisas internacionais?
Quando observamos estudos educacionais de diferentes países, encontramos evidências relevantes sobre práticas que favorecem a aprendizagem.
Um guia de práticas do Institute of Education Sciences, dos Estados Unidos, apresenta recomendações para o desenvolvimento da leitura nos primeiros anos escolares.
Entre elas estão o trabalho com a linguagem oral, a consciência dos sons da fala, as relações entre letras e sons, a decodificação de palavras e a leitura frequente de textos.
Outro aspecto importante aparece nas pesquisas sobre linguagem oral.
Conversar com as crianças, ampliar o vocabulário, contar histórias, fazer perguntas e estimular a expressão de ideias são práticas associadas ao desenvolvimento de habilidades fundamentais para a compreensão da leitura.
Isso mostra que a alfabetização não começa apenas quando a criança pega um lápis.
Ela está relacionada às experiências com a linguagem, com os livros, com as histórias, com as brincadeiras e com as interações que fazem parte da infância.
Mas também precisamos reconhecer que os resultados de pesquisas realizadas em outros países não podem ser simplesmente copiados para todas as escolas brasileiras.
Nossas turmas, condições de trabalho, realidades familiares e necessidades educacionais são diferentes.
A ciência pode oferecer caminhos. O professor precisa compreender como aplicá-los ao seu contexto.
O papel da Educação Infantil: preparar sem antecipar
Uma preocupação recorrente entre famílias e professores é saber quando a criança deve começar a aprender a ler e escrever.
Na ansiedade por resultados, podemos acabar transformando a Educação Infantil em uma preparação acelerada para o Ensino Fundamental.
Mas a infância não deve ser tratada como uma corrida.
Na Educação Infantil, as experiências precisam respeitar o desenvolvimento da criança, garantindo oportunidades de brincar, conviver, explorar, participar, expressar-se e conhecer-se.
Isso não impede que as crianças tenham contato com livros, letras, histórias e situações reais de escrita.
Pelo contrário.
É possível explorar os sons das palavras, reconhecer o próprio nome, ouvir histórias, brincar com rimas e perceber que a escrita está presente em diferentes situações do cotidiano.
A diferença está na maneira como fazemos isso.
Não precisamos escolher entre respeitar a infância e oferecer experiências que favoreçam a alfabetização. Podemos fazer as duas coisas com responsabilidade.
E quando a criança não aprende no mesmo ritmo das outras?
Essa talvez seja uma das questões mais delicadas do trabalho educacional.
Em uma mesma turma, encontramos crianças com experiências, conhecimentos, interesses e necessidades diferentes.
Algumas reconhecem letras com facilidade. Outras precisam de mais oportunidades de exploração.
Algumas demonstram segurança para falar. Outras ainda estão ampliando a linguagem e construindo confiança.
É importante compreender que aprender em ritmos diferentes faz parte da diversidade humana.
Mas respeitar o ritmo não significa deixar de acompanhar o desenvolvimento.
Quando uma dificuldade persiste, precisamos observar, registrar, investigar as possíveis barreiras e oferecer intervenções adequadas.
Uma avaliação pedagógica não deve servir apenas para classificar a criança.
Ela deve ajudar o professor a compreender o que o aluno já sabe, quais habilidades precisam ser fortalecidas e que experiências podem contribuir para seu avanço.
A avaliação precisa orientar o ensino, não apenas registrar o resultado.
E sempre que necessário, escola e família devem dialogar sobre a necessidade de apoio especializado, sem transformar toda dificuldade de aprendizagem em um diagnóstico.
A família pode ajudar, mas não deve substituir a escola
Também precisamos conversar sobre a participação dos pais e responsáveis.
Muitas famílias desejam ajudar, mas não sabem como.
Outras convivem com jornadas de trabalho extensas, limitações de tempo e dificuldades de acesso a livros e recursos educativos.
Por isso, não considero justo transferir para os pais a responsabilidade que pertence à escola.
A família tem um papel importante, mas esse papel deve ser construído em parceria.
Pequenas experiências podem fazer diferença:
Ler histórias e conversar sobre os personagens.
Perguntar à criança o que ela mais gostou em uma história.
Brincar com rimas e sons das palavras.
Valorizar suas tentativas de escrita.
Incentivar a curiosidade e a expressão de ideias.
Manter diálogo com os professores sobre as necessidades da criança.
Não se trata de transformar a casa em uma sala de aula.
Trata-se de mostrar que a aprendizagem também acontece nas conversas, nas histórias, nas brincadeiras e nas experiências cotidianas.
Tecnologia e Inteligência Artificial: inovação ou apenas novidade?
Como professora universitária que também trabalha com tecnologia e Inteligência Artificial, considero esse debate indispensável.
Vivemos um momento em que novas ferramentas conseguem produzir atividades, organizar conteúdos, adaptar materiais e oferecer recursos digitais em poucos minutos.
Isso abre possibilidades interessantes para professores.
Mas precisamos fazer uma pergunta: uma atividade produzida com tecnologia é necessariamente uma atividade pedagogicamente adequada?
A resposta é não.
A Inteligência Artificial pode ajudar no planejamento, na elaboração de sugestões e na organização de recursos. Entretanto, ela também pode apresentar informações incorretas, propostas inadequadas para determinada faixa etária ou atividades sem objetivos claros.
Por isso, a tecnologia precisa estar a serviço da educação, e não o contrário.
O professor continua sendo responsável por analisar, selecionar, adaptar e acompanhar a aprendizagem.
Acredito que inovação educacional não significa apenas utilizar ferramentas modernas.
Inovar também pode significar mudar uma pergunta, reorganizar uma atividade, escutar melhor um aluno ou encontrar uma forma mais clara de explicar determinado conteúdo.
A tecnologia pode ampliar nossas possibilidades. Mas é o conhecimento pedagógico que dá sentido ao seu uso.
Afinal, o que realmente precisamos mudar?
Não acredito em soluções mágicas para a educação brasileira.
Também não acredito que uma única metodologia, um material pronto ou uma ferramenta tecnológica possa resolver problemas que envolvem desigualdade, formação profissional, infraestrutura, gestão escolar e necessidades individuais.
Mas acredito que podemos avançar quando começamos a olhar para a aprendizagem com mais atenção.
Precisamos de professores com oportunidades reais de formação, planejamento e acompanhamento de seus alunos.
Precisamos de práticas pedagógicas que considerem os conhecimentos disponíveis sobre como as crianças aprendem.
Precisamos de avaliação que permita identificar dificuldades antes que se acumulem.
Precisamos valorizar a oralidade, a leitura, a escrita, a brincadeira e o desenvolvimento integral.
E precisamos fortalecer a relação entre a escola e as famílias.
Acima de tudo, precisamos abandonar a ideia de que uma criança aprende simplesmente porque uma atividade foi aplicada ou um conteúdo foi apresentado.
Ensinar é criar condições para que a aprendizagem aconteça. E verificar, com sensibilidade e responsabilidade, se ela realmente aconteceu.
Uma reflexão para professores e famílias
Quero encerrar este artigo com uma reflexão que considero essencial.
Quando uma criança apresenta dificuldades, nossa primeira pergunta não deveria ser apenas: "Por que ela ainda não aprendeu?"
Também precisamos perguntar:
"O que ela já sabe?"
"Como estamos ensinando?"
"O que podemos fazer de maneira diferente?"
"Que apoio ela precisa para avançar?"
Essas perguntas não oferecem respostas imediatas, mas podem transformar nossa maneira de olhar para o processo educativo.
A educação brasileira enfrenta desafios reais. Entretanto, também é construída diariamente por profissionais, famílias e crianças que continuam aprendendo, tentando e descobrindo novas possibilidades.
É por acreditar nesse processo que desenvolvo o trabalho do Descomplicando a Pedagogia.
Meu propósito é aproximar o conhecimento educacional da vida real, compartilhar orientações e oferecer recursos que ajudem professores e famílias a compreender melhor a aprendizagem infantil.
Porque descomplicar a educação não significa simplificar sua importância. Significa tornar o conhecimento mais acessível sem perder sua profundidade.
E talvez seja exatamente disso que precisamos: menos promessas de resultados rápidos e mais compromisso com uma aprendizagem que faça sentido e permaneça ao longo da vida.
Professora Glaucia Martins
Descomplicando a Pedagogia — Educação que aproxima. Conhecimento que transforma.
Vamos continuar essa conversa?
Na sua opinião, qual é o maior desafio da alfabetização atualmente: os métodos de ensino, as condições de trabalho dos professores, a participação das famílias ou a dificuldade de acompanhar as necessidades de cada criança?
Compartilhe sua experiência nos comentários. Quero conhecer diferentes realidades e ampliar essa conversa com professores e famílias de todo o Brasil.




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